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Editorial – Educação de evidências

4 setembro 2016

Há um adágio da física que assevera que só se conhece aquilo que se pode medir. Especialmente nas ciências humanas, essa ideia é vista com horror e espanto.

Não há necessidade de aguardar a suspensão desse debate epistemológico nem de posicionar-se a seu respeito para concluir que a mensuração de um fenômeno, mesmo não sendo essencial ao conhecimento, decerto o favorece.

É positivo, portanto, constatar que a preocupação em medir resultados tenha chegado ao campo da educação, paradoxalmente um dos que mais resistem a avaliações.

O instituto Unibanco e secretarias estaduais de educação mantêm o projeto Jovem de Futuro. Ele oferece apoio a escolas públicas interessadas em melhorar a gestão educacional, adotando programas estruturados com foco no aluno.

O economista Ricardo Paes de Barros, do Insper, testou o Jovem de Futuro seguindo cânones do método científico e concluiu que, neste caso, o que parece óbvio não apenas funciona, isto é, resulta em maior aprendizado, como ainda o faz numa escala considerável.

Levar projetos educacionais à bancada do laboratório para medi-los com alguma precisão nem sempre é fácil, mas Paes de Barros e o Instituto Unibanco conseguiram.

De uma amostra de escolas interessadas em aderir ao programa, eles sortearam algumas para adotá-lo imediatamente e outras, o grupo de controle, para aguardar três anos antes de fato inicia-lo. Assim, puderam realizar 141 experimentos de comparação entre escolas com perfil inicial semelhante e testar o impacto que a introdução do programa gerou.

Ao final do terceiro ano deteste, os estudantes que concluíram o ensino médio nas escolas que mudaram sua gestão obtiveram em média cinco pontos a mais nas provas do exame Saeb do que os dos colégios que ficaram no grupo de controle. A análise estatística apontou robustez nos resultados. A melhora de cinco pontos equivale a 80% do que o estudante brasileiro normalmente aprende num ano letivo —um ganho considerável.

Iniciativas para investigar com rigor o impacto de políticas educacionais precisam multiplicar-se. Não dá mais para autoridades e educadores implantarem políticas com base em meras opiniões e em teorias pedagógicas favoritas.

É preciso que suas decisões estejam amparadas em estudos científicos, num movimento análogo ao que a medicina realizou algumas décadas atrás, inaugurando a chamada medicina baseada em evidências —uma inovação que salvou incontáveis vidas.

Editorial do jornal Folha de S.Paulo publicado no dia 04/09/2016.