Seminário no Ceará fala sobre evasão escolar e gestão para diversidade

Cerca de 800 profissionais da educação estadual do Ceará participaram do “Seminário de Diretores Escolares 2018 – Boas Práticas em Gestão Escolar para Resultados de Aprendizagem”, no dia 05 de abril, em Fortaleza (CE). O evento foi promovido pelo Instituto Unibanco e pela Secretaria de Estado da Educação (SEDUC-CE). Durante a abertura, Idilvan Alencar, secretário Estadual de Educação do Ceará, afirmou que este é um ano para aprimorar o circuito de gestão, método que orienta e organiza processos, responsabilidades e atividades de gestão em educação conectando escolas, regionais e secretarias.

Maria Júlia Azevedo, gerente de Implementação de Projetos do Instituto Unibanco, na palestra “Gestão para resultados de aprendizagem e equidade”, apresentou e analisou  dados do Ensino Médio público brasileiro. “A cada 100 estudantes que entram na escola, 96 concluem o Ensino Fundamental I, 83 terminam o Ensino Fundamental II e 65 concluem o Ensino Médio”, disse. Quando a análise é feita de acordo com um recorte racial os números mudam. A cada 100 pessoas negras que entram na escola, 58 concluem o Ensino Médio. Entre as brancas, 75 de 100 finalizam. Maria Júlia também ressaltou a importância de identificar os problemas e buscar soluções coletivamente com foco na equidade. “Será que estamos nos importando com quem deixa a escola? E com o professor que está frágil?”, questionou.

Na primeira mesa de troca de experiências, Otacílio de Sá Pereira, gestor na E.E.M Gov. Adauto Bezerra, de Fortaleza (CE), e Elis Regina Barbosa, gestora na E.E.M Joaquim Magalhães, de Itapipoca (CE), falaram sobre a importância de ações que envolvem os estudantes e a comunidade escolar para conter a evasão escolar. “As coisas só funcionam em equipe. E a equipe é a comunidade inteira”, disse Otacílio.

O gestor também falou sobre a importância de elevar a autoestima dos jovens e contou algumas atividades promovidas na sua escola, como reuniões com lideranças estudantis sobre a participação dos jovens na dinâmica escolar e discussões com os diretores de turma sobre a inserção dos alunos em atividades de rotina pedagógica. “Da mesma forma que a gente tem autoridade como professor, diretor, eles têm autoridade como estudantes”, completou Otacílio.

Elis Regina contou que em sua escola, dentre as diversas ações, começaram a acompanhar diariamente a infrequência e a desenvolver as competências socioemocionais dos estudantes. Entre 2006 e 2017, a taxa de abandono passou de 21,5% para 2%  e a taxa de aprovação passou de 72,6% para 97,3% no mesmo período. “Isso não é mérito só da gestão, mas de toda a equipe. Professores, alunos, comunidade escolar”, disse ao reforçar a importância do trabalho em conjunto. “A gente precisa desmassificar os alunos, olhar para eles como indivíduos”, finalizou Luciano Nery Ferreira Filho, mediador da mesa e coordenador da Coordenação de Avaliação e Acompanhamento da Educação (COAVE).

Na mesa seguinte, Francisco Erivando Barbosa, gestor na E.E.M Filha da Luta Patativa do Assaré, de Canindé (CE), e Lindemberg Jackson Sousa de Castro, gestor na E.E.E.P Professora Marly Ferreira Martins, de Caucaia (CE) compartilharam experiências sobre gestão para diversidade. Francisco contou ter preocupação com as relações machistas, casos de homofobia e com a tentativa da aprovação do projeto “Escola Sem Partido” na Câmara Municipal de Canindé . Assim, com o intuito de estimular a reflexão sobre esses problemas, foram promovidas oficinas, simulação de situações do cotidiano que envolvem relações de gênero, estudos, debates, entre outras atividades . Segundo Francisco, as ações resultaram na diminuição de ocorrências de discriminação sexual. “A gente reforçou que a educação tem o poder de transformar”, compartilhou.

Lindemberg relatou que em 2016 fez uma pesquisa na escola Professora Marly Ferreira. Os resultados mostraram que 90% dos alunos concordavam que o tipo de roupa justifica a mulher ser assediada ou estuprada. 75% das meninas disseram que já tinham sofrido assédio ou abuso sexual e 85% delas afirmaram terem sido assediadas no transporte público. Para construir coletivamente uma nova perspectiva sobre gênero e sexualidade foram implementadas as disciplinas “Escola, espaço de reflexão”, que em 2017 era um curso, e “Ensino em Ciências Humanas e o uso dos quadrinhos e mangás como ferramenta de combate ao machismo e sexismo”. Iniciaram o fomento de projetos científicos com pesquisas na área de direitos humanos, criaram o “Festival da Diversidade”, o “Núcleo de Estudos Malala Yousafzai”, formado por alunos e professores, e a “Formação em Gênero e Diversidade na Escola”, específica para professores. “Não adianta o trabalho envolver só alunos. É preciso envolver os professores também”, disse Lindemberg.

Por fim, Rogers Mendes, secretário adjunto Estadual de Educação do Ceará, apresentou uma análise de aprovação, reprovação e abandono de estudantes das escolas estaduais de Ensino Médio cearenses. Dados mostram que o abandono caiu de 9,6%, em 2013, para 6,6%, em 2017. Já o percentual de aprovação passou de 83,2 para 88,2 no mesmo período.